quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Texto da Mô

Atendendo a pedidos, publico o texto maravilhoso e desestabilizador (desestabilizar-se às vezes é muito importante; combate as ideias prontas!) que a Mõ leu para o pessoal do 9º ano ontem, no penúltimo ensaio geral de Errância.

Ponho-me a escrever sobre Errância e desgraçadamente faltam palavras. Talvez por que errância não deva ser definida por palavras, mas sim sentida e como é infinito o modo de sentir, para cada um que assistirá a peça, errância criará uma rede de significados diferentes.

Vocês serão vistos por uma juventude/juventude que vive a primeira explosão dos hormônios, uma juventude/juventude, que um pouco mais velha, que vive a fase do flerte com a desobediência civil, questionando a ordem estabelecida no mundo em que vivemos. Mas além dessa platéia vocês terão seus professores, avós, tios, os funcionários da Escola, alunos do EJA que não são mais tão jovens, mas talvez possam se lembrar das próprias juventudes evocando com carinho momentos vividos ou até mesmo se perdoando de suas possíveis errâncias, que, com certeza, foram muitas. Afinal, só porque erro acerto: me construo. E por fim, na platéia, estarão os pais, ex jovens, que convivem com a explosão da juventude em suas casas. Mamãe, mamãe, não chore. A vida é assim mesmo. Coragem!

Diante dessa diversidade só posso dizer sobre o que Errância causou e causa em mim como platéia, em termos de sensações, sentimentos, lembranças e associações.

Led Zeppelin e a montagem criada pelo Dahia, explodindo na passagem dos créditos, geram uma tremenda expectativa. O que vai rolar nesse palco deve ser muito bom...

Em seguida vem uma infantilidade doce. O sexo oposto ainda não existe. A cara de Tereza parecia uma perna. Feia, boba!!! Mas com meu porquinho da índia exercitei a minha capacidade de cuidar de dar carinho a um objeto amado. Antônia, você ainda é uma lagarta, minha amiguinha querida, mas você será, um dia, uma linda borboleta e quero ficar perto de você. So happy together.

Daí vieram os hormônios, cena engraçada, mas quem viveu ou vive a mudança hormonal sabe que esse caldo químico tira o controle da gente. Pá, pá, pá. O primeiro amor ninguém esquece. Pá, pá, pá. Não me lembrava disso há anos. FOI MEU PRIMO! Ah, mais que noites de sôfrego desejo: esperava um olhar, um sinal de correspondência ao meu amor. Chorava, sofria, sonhava... O que eu faria se ainda não tinha estudado o código do amor? Será que ele era burro? Não sei, nada aconteceu. Mas o primeiro amor, ninguém esquece. Hoje ele não é mais herói da Paramount: dorme no sofá, bebe demais e é um chato e eu também não sou mais uma loira notável. Não nós casamos. Ainda bem...

Novos amores apareceram. Eu preciso dizer que te amo, me dá um medo. Gestos contidos. Será que eu posso ser rejeitada?Afinal, ele é um amigo que confidencia as dores de outros amores. Ai que dor...

Ah, as baladinhas, ensaiava com minhas amigas as coreografias, dançávamos o tempo todo. O objetivo: seduzir aquele garoto. Só ele existia no Universo inteiro. Do outro lado ele e seus amigos também criavam uma dança sedutora e dançavam magicamente... Nós deslizávamos pela pista de dança e nos apaixonávamos ainda mais. Era um rito primitivo que antecedia o encontro.

Romeu e Julieta: o encontro amoroso. Ele me beijava... Não vi mais nada, você era a coisa mais bonita que eu já vi na minha vida, inclusive o porquinho da índia que me deram quando eu tinha 6 anos. O amor vira o mundo de ponta cabeça e, muitas vezes machuca, e a ferida não sara nunca. Odeio você, mas todas essas iras são de amor.

Mas vale a pena? Qualquer maneira de amor vale à pena seja ele por uma pessoa ou por uma causa, uma questão social.

Todos os amores são perigosos, sempre envolvem riscos. Tome cuidado, às vezes o mundo pode ser selvagem.

Muitos da juventude de 68, em diferentes países, pagaram caro por sua desobediência ao dizer: “não me pare, estou me divertindo agora, rompendo com todos os padrões estabelecidos”. Contra o sistema a arma foi a ironia que menosprezava tanto os poderes capitalistas como o socialista. Segundo eles, a polícia, agente repressor dos dois sistemas só teria a função: de fornecer a população “gêneros de primeira necessidade” como fósforos, preservativos e esparadrapos. Essas idéias foram ecoando por galos que, cantando-as, foram tentando tecer o amanhã marcado por manifestações que eclodiam no mundo todo.

Para muitos que observavam a explosão daquela juventude, que defendia a construção de uma nova sociedade, suas reivindicações eram absurdas, impraticáveis. Para outros, as mesmas carregavam idéias generosas, capazes de trazer novas alternativas as formas de viver. As utopias teriam algum valor?

No geral, as famílias, a escola, o Estado, tremeram diante daqueles jovens “desajustados” que gritavam é proibido proibir, nós não vamos aceitar. Seus quereres iam contra todos os poderes. Sofrendo uma dura repressão continuavam gritando: RESISTIRÉ. Mas o que eles queriam? Nem Deus poderia atender aos seus pedidos. Eles só queriam mudar toda a vida encontrando o prazer de começar. Queriam alegria, alegria... É absurdo querer felicidade?

Eles queriam o amanhã, mas a vida é dia a dia. Mamãe, me dei mal na escola. Será que os jovens de hoje nada querem aprender? Será que eles acreditam que a organização da vida que nos é imposta é uma verdade válida para todos os tempos?

1968 poderia acontecer de novamente? Para ser igual, teria que ser diferente. Afinal, modelos não servem, as estações mudaram e talvez o esquecimento, o desligamento da juventude de 68 gere novas forças, novas possibilidades, novas utopias.

Para isso os jovens de hoje terão muito que aprender, muito que andar, muito que viver, muito que aprontar para que possam questionar as chamada formas permanentes da sociedade em que vivem e, quem sabe, encontrar novas formas de atuação na vida e no mundo. Com certeza, nessa trajetória cometerão muitos erros, toparão com muitas pedras no caminho que ninguém tirará da frente. Mas a vida é assim mesmo. A liberdade implica não contarmos mais com a mediação de outros e, agindo por conta própria, erramos para nos construirmos. Só espero que esses jovens não se percam por aí.

Essa foi a Errância, projeto elaborado por dois jovens professores criativos e que acreditam poder transformar o mundo, entendida e sentida por mim, e dada de presente a vocês.

A vocês, esses jovens que estão dando vida a esse projeto, só posso desejar o mesmo o que o Rô e o Gui tão lindamente colocaram no final desse projeto. Que Deus os abençoe e os guardem sempre. E não se esqueçam! A grande força transformadora está no AMOR. Fiquem atentos às possibilidades apresentadas pelo ETERNO DEUS MUDANÇA: questionem, pensem, não se adaptem. Enfim, criem as possibilidades.

SUCESSO PARA TODOS.

BEIJOS

Mô.

4 comentários:

  1. mô,otexto ficou lindo mesmo, na eh soh uma copia como voce disse. paranbens e valeu por ajudar a gente tanto, dando conselhos e nos inspirando.
    grande abraço, caue e vitinho

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  2. MÔ, VOCÊ É O MÁXIMO! Desgraçadamente faltam palavras pra te descrever. Obrigada por tudo, tudo que você já fez por nós durante esses dois anos de aula com você, sem sombra de dúvida, a MELHOR professora de história! Eu já to morrendo de saudade, só de pensar que no ano que vem não vai ter mais nada disso. Nem Mô, nem Gui, nem Rô! Mas podem ficar tranquilos que a gente vai agradecer por tudo fazendo da ERRÂNCIA a MELHOR peça já feita! Beijos!

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  3. O vídeo que fizeram para Mô ficou...(estou sem palavras)! Me emocionei MUITO!!!

    Não foi apenas uma arma de emoção para a Mô, mas também para todos os alunos! E o difícil de pensar é que depois disso tudo a vida continua e todos que você convivia estarão de forma normal, como sempre estiveram. Mas de uma coisa é verdade, o projeto estará sempre nas nossas lembranças!

    No CountDown(www.errancia2009.blogspot.com)que fiz, deixarei os números ficarem negativos, para que eu possa lembrar a cada dia que passa, um ano tão feliz!

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  4. moo voce é uma fofa t amo muito
    seu texto é perfeito
    vou sentir falta de tudo mas nao irei chorar por ter acabado mas sorrirei por ter acontecido
    melhor experiencia sempre

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